Análise do Poema
O poema que se inicia com a abertura "Não sei, ama, onde era", é um poema ortónimo de Fernando Pessoa, datado de 23 de Maio de 1916.
Trata-se de um diálogo entre uma senhora nobre (uma princesa?) e a sua ama. Claro que é um diálogo imaginado, e quase se diria que um diálogo influenciado pelo então recém-falecido amigo Mário de Sá-Carneiro (falecera em Abril de 1916, em Paris). Tanto Sá-Carneiro como Pessoa guardavam imagens das suas amas. Veja-se por exemplo a seguinte passagem:
"Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, O Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que dormia..."
Vemos que neste poema, Pessoa usa de um tom similar, e usa a mesma imagem poética da ama e da princesa. Será a mera recordação de uma história contada na infância pela tal ama? Não o sabemos, mas é o que parece. Aliás, será essa história que Pessoa depois parece contar para si mesmo, reproduzindo essa mesma memória de infância, que o faz regressar.
Uma princesa, num Jardim de Primavera, olha o céu azul e pressente que está tudo bem com o mundo (o uso do imperfeito do indicativo nestas referências, jardim, céu jardim e flores parece indicarem um desejo de continuidade do passado no presente). A cena é de incrível serenidade, como convém numa história que se conta a uma criança. O jardim está cheio de flores e toda a cena faz Pessoa chorar apenas por imaginá-la, porque é uma cena ideal, que não pode ser real (veja-se que é isso mesmo que a ama lhe indica, que "os sonhos são dores"). Os contos que a ama lhe contava eram isso mesmo, cenas ideais, que se opõem ao que era para ele então a sua realidade presente. A interpelação final que ele faz à ama, pedindo-lhe: "Conta-me contos, ama...", é quase um pedido de ajuda, para ele conseguir fugir ao presente, para se refugiar nesse passado de criança, onde tudo era mais fácil, mais simples, onde ele se poderia imaginar nesse jardim abandonado, sem problemas, sem preocupações.
A imagem do jardim e da "dama" é uma imagem tão ideal que Pessoa diz mesmo que "todos os contos são / Esse dia, e jardim e a dama / Que eu fui nessa solidão...".
Claramente o poema pode resumir-se como sendo um dos poemas ortónimos que se insere no tema do regresso à infância. A negatividade, o não acreditar no presente, a reflexão dura sobre esse mesmo presente e a colocação da infância num pedestal inalcançável - são tudo marcas indeléveis dessa poesia ortónima, que encontramos neste poema. Uma poesia que prefere o sonho à realidade, que prefere a reflexão sobre o passado à constatação cruel do presente
O poema é composto por por 24 versos agrupados em 5 estrofes.Estas estrofes são quintilhas apenas a ultima é quadra. Os versos são redondilhas maiores pois tem 7 silabas métricas. A rima é cruzada em todo o poema