O que é para mim um portefólio?

O portefólio é um método simples de aprofundar os nossos conhecimentos. Este resulta de uma organização cuidada do material que nos é dado nas aulas, de pesquisas que podemos desenvolver sobre temas e que nos agradem e de outras coisas que a professora vai sugerindo nas aulas.






Módulo 10 - Mensagem

Mensagem- Fernando Pessoa
Carácter épico-lírico

A Mensagem é uma obra épico-lírica, pois,
 como uma epopeia, parte de um núcleo histórico (heróis e acontecimentos da História de Portugal), mas apresenta uma dimensão subjectiva introspectiva, de contemplação interior, característica própria do lirismo.
A estrutura da obra
Assim, a estrutura da Mensagem, sendo a dum mito numa teoria cíclica, a das Idades, transfigura e repete a história duma pátria como o mito dum nascimento, vida e morte dum mundo; morte que será seguida dum renascimento. Desenvolvendo-a como uma ideia completa, de sentido cósmico, e dando-lhe a forma simbólica tripartida – Brasão, Mar Português, O Encoberto. Que se poderá traduzir como: os fundadores, ou o nascimento; a realização, ou a vida; o fim das energias latentes, ou a morte; essa conterá já em si, como gérmen, a próxima ressurreição, o novo ciclo que se anuncia – o Quinto Império. Assim, a terceira parte, é toda ela cheia de avisos, preenche de pressentimentos, de forças latentes prestes a virem á luz: depois da Noite e Tormenta, vem a Calma e a Antemanhã: estes são os Tempos. E aí sempre perpassarão, com um repetido fulgor, sempre a mesma mas em modelações diversas, a nota da esperança: D. Sebastião, O Desejado, O Encoberto…
É dessa forma, o mítico caos, a noite, o abismo, donde surgirá o novo mundo, “Que jaz no abismo sob o mar que se segue”.

Símbolos unificantes
Castelos- simbolizam protecção, segurança e as conquistas dos heróis
Timbre- simboliza o poder legítimo e a sagração do herói
Grifo- simboliza a união do terreno e do celeste, do humano e do divino
Mar- simboliza vida e morte e o reflexo do céu
Brasão- simboliza formação de um reino e o passado inalterável
Noite- simboliza a morte, a inércia e hipóteses de renascimento
Mostrengo- simboliza a lenda do mar, o desconhecido e os medos
Coroa- simboliza realeza, o poder e a perfeição
Quinas- simboliza sofrimento ( 5 chagas de cristo) e a rendição dos pecados do homem
Nau- simboliza a viagem, provações e os caminho a percorrer
Terra- simboliza o refúgio e a passividade
Ilha- simboliza o centro espiritual ( por ser de difícil acesso)
Manhã- simboliza a luz, a vida e o novo mundo
Nevoeiro- simboliza indefinição e a incerteza
Campo- passividade ( como a terra)

Sebastianismo

O sebastianismo, conhecido também por o mito sebástico ou mito do «encoberto», é um mito messiânico originado no desaparecimento do rei D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir em 4 de Agosto de 1578, mas alimenta-se de raízes profundas, nomeadamente o Bandarrismo (profecias do sapateiro de Trancoso, Gonçalo Anes Bandarra, anterior a D.Sebastião e cujas trovas foram depois àquele rei adaptadas) e ainda os mitos peninsulares do Encubierto, além de outras fontes de profetismo judaico correntes por toda a Europa.
O Sebastianismo virá a apropriar-se do Bandarrismo, bem como, ao longo do período de afirmação da
 Restauração - após 1640-, de todos os mitos e lendas que fortificassem a independência e um sentimento de predestinação e de missão pátria (alicerçado no conhecido mito ou milagre de Ourique, cuja batalha se situa em 1139-1140). Nos anos subsequentes á derrota de Alcácer Quibir, foi fácil fazer acreditar em D.Sebastião regressado, isto é, em falsos D.Sebastião.
A vontade de D.Sebastião estivesse rico, para garantir a restauração da nacionalidade, o caudal de dúvidas e lendas acerca do seu desaparecimento, o fundo de messianismo judaico ( de que é forte componente o Bandarrismo) dão corpo a este mito messiânico português que é o Sebastianismo, uma «resposta» mítica do povo tiranizado, humilhado pela independência perdida (« enquanto formos escravos de Felipe/ Ovelhas seremos de D.Sebastião», escreveu Natália Correia em O Encoberto).
Nascido após a morte do pai, D.Sebastião fora, o rei desejado. Desenvolvendo-se num contexto de perda da independência, o Sebastianismo, alimentando-se do «mito do encoberto», transforma o Desejado no Encoberto.

Quinto Império
O Quinto Império parte do império espiritual da Grécia, origem do que espiritualmente somos. E, sendo esse o Primeiro Império, o Segundo é o de Roma, o Terceiro o da Cristandade, e o Quarto o da Europa- isto é, da Europa laica de depois da Renascença. Aqui o Quinto Império terá que ser outro que o inglês, porque terá de ser de outra ordem. Nós o atribuímos a Portugal, para quem o esperamos.


 Poemas da Mensagem
1º Parte- “Brasão”

Cabeça de Grifo
-O Infante D. Henrique
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras-
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

PRIMEIRO / O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-Ihe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo e recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita e Portugal.

Análise:
A personificação da Europa é a base do texto, tendo como face mais nítida as referências a partes do corpo humano.
     A primeira estrofe está carregada de informação preciosa: por um lado, a atitude da Europa; por outro, a História da Europa (que é, do ponto de vista do poema, a própria natureza da Europa).
     A Europa assume uma atitude contemplativa, fisicamente inactiva : note-se a repetição do verbo ‘jazer’ (verbo com uma conotação fúnebre), a posição contemplativa de uma pessoa apoiada nos cotovelos e os verbos “fitar” e “lembrar” como únicas acções praticadas por este corpo (ambos os verbos no gerúndio, indicador de aspecto durativo).
A primeira estrofe sintetiza, ainda, um percurso que explicará a natureza da própria Europa. A orientação escolhida pelo sujeito poético para descrever o corpo não é inocente: “De Oriente para Ocidente”. Deste modo, mais do que reforçar o visualismo que nos permite imaginar um corpo humano deitado, o poeta faz uma verdadeira síntese da evolução da cultura europeia, nascida a Oriente, na Grécia, e continuando para Ocidente.
É preciso notar que este caminho em direcção ao Oeste é feito de acumulações e não de perdas e a cultura europeia é, assim, explicada como Lavoisier explicou a natureza: nada se perde. A cultura europeia é feita, portanto, de todos esses elementos que se acumularam ao longo do tempo. É uma cultura compósita que junta os “românticos cabelos” e os “olhos gregos”. A imagem do corpo reforça, então, essa ideia de vários elementos que constituem uma unidade, o corpo é o símbolo dessa aglutinação de culturas que correspondem, no fundo, a uma só.
     A segunda estrofe prolonga o visualismo com as referências a partes do corpo e reforça, ao mesmo tempo, a ideia de uma cultura constituída por elementos diversos, com a indicação de mais dois países. Também aqui é fundamental atentar no pormenor, antecipando uma possível interpretação: o cotovelo em que assenta o rosto poderá constituir uma referência à ligação histórica entre Portugal e Inglaterra.
     Na penúltima estrofe, chega-se, finalmente ao rosto, mais especificamente ao olhar. Antes de atentar no olhar, lembremos que o rosto é a face – passe o pleonasmo – mais visível da identidade do corpo humano. O olhar da Europa é, então, “esfíngico e fatal”, adjectivos que unem mistério e destino.
     A Europa vê, então, no Ocidente, o “futuro do passado”, ou seja, o momento presente, correspondente ao culminar dessa viagem que começou no Oriente. Percebe-se, então que o objectivo não era descrever o passado ou aclarar o presente, mas tornar inelutável o momento e, sobretudo, o depositário da síntese, Portugal, o rosto, a identidade da Europa.


2º Parte- “Mar Português”
Mostrengo
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
“Quem vem poder o que eu só posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”

Análise:
“Mostrengo” Tema: Alegoria aos medos e obstáculos impostos aos portugueses.
Ideias principais: Inicialmente há uma tentativa por parte do povo português, representado pelo homem do leme de dobrar o Cabo das Tormentas.
No entanto, este é impedido pelo “Mostrengo”, com quem estabelece um dialogo (o Mostrengo apresenta-se superior e capaz de atemorizar toda a tripulação).
Após uma série de questões feitas pelo “guardador de cavernas” com o objectivo de demover os portugueses do seu principal objectivo, o Homem do Leme, embora assustado, ganha coragem e força para enfrenta-lo, possibilitando assim a continuação da viagem.
Inserção do poema na estrutura de “Mensagem”: Segunda parte – “O Mar Português” – poemas inspirados na ânsia do desconhecido e no espaço heróico na luta com o mal.
Em o “Mostrengo” encontra-se representada a passagem do Cabo das Tormentas, ou seja, a passagem do Oceano Atlântico para o Oceano Índico, e o ultrapassar dos medos, o que confere uma aproximação aos objectivos e à sua realização.
Estes objectivos, que assumem um carácter materialista, são reflectidos no titulo da obra – “Mensagem” onde Pessoa refere também o objectivo profundo para o qual Portugal estaria determinado.
Intertextualidade:
 Apresenta profunda semelhança com o episódio “Adamastor” de “Os Lusíadas”;
 O “Mostrengo” é o retomar da alegoria presente no “Adamastor” que assusta e ameaça os navegadores (neste poema o Homem do Leme ao serviço de D. João II) e que é vencido pelo frágil “bicho da terra tão pequeno” (Camões) que se diz “vontade” de um povo que quer o Mar que o Monstro afirma ser seu;
 Apresenta uma narração e um dialogo repetido entre Golias/Mostrengo e David/Homem do Leme.
Aspectos Simbólicos:
 Numero Três: Numero fundamental, cabalístico por excelência; exprime uma ordem intelectual em espiritual em Deus, no cosmos ou no homem; sintetiza a tri-unidade do ser vivo e a união entre o Céu e a Terra;
 O Mostrengo: Simboliza o desconhecido, as lendas do Mar, os obstáculos e os medos dos navegadores portugueses;
 O homem do leme: Alegoria do povo português; representa o patriotismo e a vontade de Portugal em evoluir e alcançar um objectivo;
 O leme: Símbolo de responsabilidade; significa autoridade suprema e a prudência.

Estrutura Formal:
 Três estrofes de noves versos cada (nonas);
 Alternância rimas ricas e rimas pobres;
 Esquema rimático: AABAACDCD com rimas emparelhadas em “A”, cruzadas em “C” e “D” e em verso solto em “B”.
 Irregularidade métrica;
 Refrão Hexassilábico: “El-Rei D. João Segundo!”; • Ritmo crescente (cresce à medida que o homem do Leme “cresce” em coragem).

O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

3º Parte: - “O encoberto”
Primeiro: D. Sebastião
Sperae! Cai no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus. 

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

Quinto: Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!
Análise:
 Neste poema encontramos uma  reflexão sobre a situação da pátria, da crise económica  histórica e social que o pais atravessa, o nevoeiro neste poema é visto como uma esperança que poderá dar lugar à luz e à construção de um novo império.