Biografia
José Saramago
Prémio Nobel de Literatura 1998
A maior parte da sua vida decorreu portanto na capital, embora até ao principio da idade madura tivessem sido numerosas e ás vezes prolongadas, as suas estâncias na aldeia natal. Fez estudos secundárias (liceal e técnico) que, por dificuldades económicas, não pôde prosseguir.No seu primeiro emprego foi serranheiro mecânico, tendo exercido depois diversas outras profissões: desenhador, funcionário de saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance (terra do Pecado), em 1947, tendo estado depois largo tempo sem publicar, até 1966.Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direcção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na revista Seara Nova. Em 1972 e 1973 fez parte da redacção do jornal Diário de Lisboa, onde foi conmentador político, tendo também coordenado, durante cerca de um ano, o suplemento
cultural daquele vespertino. Pertenceu à primeira direcção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, desde 1985 a 1994.
Presidente da Assembleia Geral de Sociedade Portuguesa de Autores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi dirrector-adjunto do jornal Diário de Notícias.
A partir de 1976 passou a viver apenas do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor. Em feveriro de 1993 passoua dividir o seu tempo entre a sua residencia habitual em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago de canárias (Espanha). Em 1998 foi-lhe atribuido o Prémio nobel da Literatura.
Está casado com Pilar del Rio.
O escritor português e Prémio Nobel da Literatura em 1998 José Saramago morreu dia 18 de Junho de 2010 aos 87 anos em Lanzarote.
Bibliografia
"Terra do Pecado"(Romance) 1947
-D.João V
Descanso na colheita de William-Adolphe Bouguereau
A união do dois assenta numa relação de amparo, uma vez que ele tranquiliza-a na sua maldição de ver por dentro, enquanto ela ajuda-o na carência da sua mão, completando-se um ao outro, formando uma união perfeita. E são felizes na sua "religião do silêncio", em que o olhar tem mais valor que as palavras, em que olharem-se era a casa de ambos.
Outras personagens
Sebastiana Maria de Jesus: mãe de Blimunda;
Espaço
Tempo
Tempo histórico
O romance tem como plano de fundo o início do século XVIII. Uma época marcada pelos contrastes: as práticas retrógradas e medievais, do povo e da corte, em oposição ao esforço de modernização, com D. João V como representante.
NARRADOR
Bibliografia
"Terra do Pecado"(Romance) 1947
"Os Poemas Possíveis"(Poesia) 1966
"Provavelmente Alegria"(Poesia) 1970
"Deste Mundo e do Outro"(Crónicas) 1985
"A Bagagem do Viajante"(Crónicas) 1973
"As Opiniões que o DL teve"(Crónicas) 1974
"O Ano de 1993"1987
"Os Apontamentos"(Crónicas) 1976
"Manual de Pintura e Caligrafia"(Romance) 1977
"Objecto Quase"(Conto) 1978
"Poética dos Cinco Sentidos (O Ouvido)"(Ensaio) 1979
"Levantado do Chão"(Romance) 1980
"Que farei com Este Livro?"(Teatro) 1980
"Viagem a Portugal"(Viagens) 1980
"Memorial do Convento"(Romance) 1982
"O Ano da Morte de Ricardo Reis"(Romance) 1986
"A Jangada de Pedra"(Romance) 1986
"A Segunda Vida de Francisco de Assis"(Teatro) 1987
"História do Cerco de Lisboa"(Romance) 1989
"O Evangelho Segundo Jesus Cristo"(Romance) 1991
"In Nomine Dei"(Teatro) 1993
"Ensaio Sobre a Cegueira"(Romance) 1995
"Cadernos de Lanzarote (1993-1995)"(Diário) 1997
"Cadernos de Lanzarote I"(Diário) 1994
"Cadernos de Lanzarote II"(Diário) 1995
"Cadernos de Lanzarote III"(Diário) 1996
"Todos os Nomes"(Romance) 1997
"Cadernos de Lanzarote IV"(Diário) 1998
"Cadernos de Lanzarote V"(Diário) 1998
"O Conto da Ilha Desconhecida"1998
"A Estátua e a Pedra"(Texto de encerramento de um convénio na Universidade de Turim, "Diálogos sobre a Cultura Portuguesa. Literatura-Música-História")
"Discursos de Estocolmo"1999
"Folhas Políticas (1976-1998)"1999
"A Caverna"(Romance) 2000
"A Maior Flor do Mundo"(Conto) 2001
"O Homem Duplicado"(Romance) 2002
"Ensaio Sobre a Lucidez"(Romance) 2004
"Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido"(Teatro) 2005
"Poesia Completa"(Poesia) 2005
"As Intermitências da Morte"(Romance) 2005
"As Pequenas Memórias"2006
"A Viagem do Elefante"(Romance) 2008
"O Caderno"(Textos escritos para o blogue. Setembro de 2008 a Março de 2009) 2009
"Caim"(Romance) 2009
"O Caderno 2"(Textos escritos para o blogue. Abril de 2008 a Novembro de 2009) 2009
Memorial do Convento
Categorias da narrativa:
Acção:
A acção de memorial do convento gira em torno da vontade dos homens: vontade dos franciscanos de terem um convento, vontade de D.João V de deixar assegurada a sucessão ao trono, vontade do padre Bartolomeu de construir a sua máquina voadora, vontade da Inquisição de assegurar o seu poder através dos autos-de-fé, vontade do povo de melhorar as suas condições de vida.
De facto, o narrador começa por nos apresentar a história de D.João V, a sua promessa ao franciscano arrábido de construir um convento em Mafra, se a rainha engravida-se. Seguidamente, em jeito de crónica de costumes, faz uma impiedosa sátira a nobreza e ao clero, não poupando o povo que, em dias de autos-de fé, desce ao Rossio para se divertir a observar um massacre das vitimas de santo oficio. Paralelamente encontramos a historia de amor de Baltasar Sete-Sóis e de Blimunda Sete-Luas, dois seres que partilham o amor e o sonho do padre de Bartelomeu de Gusmão. E é com a vontade dos três e com todas as outras vontades do dominiuo do fantástico que a passarola levanta voo, sendo confundida, pelos que a observam,
De facto, o narrador começa por nos apresentar a história de D.João V, a sua promessa ao franciscano arrábido de construir um convento em Mafra, se a rainha engravida-se. Seguidamente, em jeito de crónica de costumes, faz uma impiedosa sátira a nobreza e ao clero, não poupando o povo que, em dias de autos-de fé, desce ao Rossio para se divertir a observar um massacre das vitimas de santo oficio. Paralelamente encontramos a historia de amor de Baltasar Sete-Sóis e de Blimunda Sete-Luas, dois seres que partilham o amor e o sonho do padre de Bartelomeu de Gusmão. E é com a vontade dos três e com todas as outras vontades do dominiuo do fantástico que a passarola levanta voo, sendo confundida, pelos que a observam,
como algo que pertence ao transcendente.Também o povo tem a sua vontade, a de melhorar as suas condições de vida, e procura, em Mafra, um posto de trabalho sob falsas esperanças; ou a falta de vontade de participar na epopeia da pedra, mas é obrigado a fazê-lo para que se realize o
sonho do monarca: " a sagração da basilica de Mafra será feita no dia 22 de Outubro de 1730 tanto faz que o tempo sobre como falte, venha sol ou venha chuva, caia a neve ou sobre o vento nem que se alague o mundo ou lhe dé o tranglomango". Entre as aventuras e as desventuras de um periódo da História Nacional, entre as aventuras e desventuras de Bartolomeu de Gusmão, Blimunda e Baltasar Sete-Sóis, o narrador convida-nos a reflectir sobre o presente.
PERSONAGENS
-D.João V
O rei vigente de Portugal, que vive apenas de formalidades encenadas, sem qualquer espontaneidade ou emoção. Representa o absolutismo e a consequente repressão no povo miserável. Assim a faceta de Déspota Esclarecido é revelada quando este, ao desejar ser lembrado por uma obra magnificente tal como o Rei-Sol, manda construir um enorme palácio e um convento de Mafra para franciscanos, com o pretexto de cumprir a promessa que fez ao clero -influência que justifica e "santifica" o seu
poder - para garantir a sucessão ao trono. E também por isso, tem o desejo de progresso e inovação, ao que protege projectos como, inicialmente, o da Passarola. Pela mesma razão contrata Domenico Scarlatti como professor de música da infanta Maria Bárbara, de modo a mostrar o seu apreço pelas artes.
A sua obsessão pela magnanimidade é tal, que até tem como passatempo a construção da réplica da Basílica de São Pedro de Roma.
As suas atitudes revelam então que é vaidoso, egocêntrico, megalómano e que governa consoante os seus desejos e sonhos, em que os meios justificam o fim, desprezando assim a miséria dos pobres e sacrificando o povo e a riqueza do país em nome da concretização do seu sonho maior. No entanto, revelou alguns actos de perdulária ostentação, quando lançou moedas de ouro ao povo durante os cortejos reais.
Compactua com a Inquisição, mas tem várias relações adúlteras em que a sua amante preferida é a Madre Paula do Convento de Odivelas, entregando-se aos prazeres pecaminosos e imorais da carne, e orgulhando-se dos seus abundantes bastardos.No romance, o rei tem uma imagem caricatural, ridicularizado tanto ao protagonizar cerimónias de solenidade, como nas situações que revelam as suas fragilidades que desmascaram facetas pouco dignificantes.
- D. Maria Ana Josefa
A rainha, de origem austríaca, é tratada como um mero instrumento de produção de sangue azul do rei, cuja alegria e glória do reino é dependente do seu ventre. O casal protocolar junta-se unicamente duas vezes por semana para cumprir o dever real. O rei sobe simplesmente para a cama da rainha e do mesmo modo deixa-a, não falam nem dormem juntos. A rainha dorme sempre com um cobertor de penas oriundo de Áustria, com saudades de casa, mas este já está com tão fedor e com pulgas que o rei apenas dormia com a rainha inicialmente.
Liberta-se da sua condição através do sonho, onde assume a sua sensualidade com o seu cunhado, infante D. Francisco, mas sente-se atormentada e culpada, pois tem a consciência que está em pecado, pelo que não o revela em confissão e entra numa busca constante de redenção através da oração. Ocupa-se obsessivamente com missas e longas novenas, tal como uma devota parideira que veio ao mundo só para isso, e julga que está grávida de Deus. Tem sonhos com o cunhado, infante D.Francisco mas não deixa que passem disso, quando este fez-lhe uma declaração de amor durante a ausência do rei por motivos de doença. Consciente da infidelidade do seu marido, assume perante a vida uma atitude de passividade e de infelicidade.Esta personagem representa o papel da mulher da época: submissa, simples procriadora e objecto da vontade masculina. E por pertencer à casa real e por estar grávida, nem da festa da pós-Quaresma pode desfrutar, enquanto as outras mulheres comuns aproveitam o único dia de independência que têm com os seus amantes.
Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão
O padre, cuja alcunha é Voador, é marcado pelo espírito científico, evidenciado por ignorar os fanatismos religiosos da época; pelo comportamento anti-canónico, questionando os dogmas eclesiásticos; e pela modernidade, que o levou a ter o sonho de criar uma máquina voadora. A concretização deste sonho tornou-se uma obsessão, cujas investigações científicas levou-o a viajar primeiro para a Holanda, em busca do segredo, que veria a ser o éter, que faria a passarola voar, e depois
para Coimbra, onde doutorou-se. Deste crescente saber adquirido e das suas inabaláveis certezas científicas emerge um orgulho, uma grande ambição de elevar-se um dia no ar, onde até agora só subiram Cristo, a Virgem e alguns santos eleitos. Esta obsessão também é responsável pela formação de uma Santíssima Trindade terrena com Baltasar e Blimunda, igualmente transgressores das regras da Igreja, de modo a usufruir na construção da passarola, juntamente com os seus conhecimentos científicos, a capacidade física e o saber prático do primeiro e a magia herética da segunda. O seu estatuto de transgressor da sociedade vigente e da Igreja é enfatizado quando realiza o casamento e o batismo de Sete-Luas com Sete-Sóis.
A amizade entre estes três é o símbolo da solidariedade e da beleza, em dicotomia com o egoísmo e o poder.Inicialmente o padre estava sob a protecção real, mas assim que esta terminou, foi imediatamente perseguido pela Inquisição sob a acusação de bruxaria, obrigando-o a abandonar o projecto a Baltasar e a fugir a segredo de todos para Espanha, onde acaba por morrer em Toledo. Domenico Scarlatti
Primeiramente professor do infante D.António, irmão de D. João V, passando depois a ser professor da infanta D. Maria Bárbara. Exerceu assim as funções de mestre-de-capela e professor da Casa Real de 1720 a 1729, durante a qual escreveu diversas peças musicais. Com tais dados registados na História oficial, esta personagem referencial ainda mais uma credibilidade ao enquadramento histórico da narrativa.
Primeiramente professor do infante D.António, irmão de D. João V, passando depois a ser professor da infanta D. Maria Bárbara. Exerceu assim as funções de mestre-de-capela e professor da Casa Real de 1720 a 1729, durante a qual escreveu diversas peças musicais. Com tais dados registados na História oficial, esta personagem referencial ainda mais uma credibilidade ao enquadramento histórico da narrativa.
Embora contratado pelo rei, é também um representante de contra-poder devido à sua liberdade de espírito e pelo o seu poder libertador e subversivo da sua música. Como tal, a convite do padre Bartolomeu, é um participante do projecto da passarola, embora indirectamente, como um cúmplice silencios. Deste modo o narrador une a ciência e a arte, e demonstra como ambas são reveladoras de um espírito de inovação, de tolerância e de abertura ao progresso e à modernidade. Assim, Scarlatti instala secretamente o seu cravo para a Quinta do Duque de Aveiro, onde toca a sua música e inspira os construtores da passarola. Mais tarde, quando Blimunda ficou com uma estranha doença causado pela exaustão da recolha das vontades, o músico tocava frequentemente para Blimunda até provocar a sua cura completa.Deste modo é revelado que a música, aliada ao sonho, permite a cura e ajuda a conclusão e o voo da passarola, simbolizando o ultrapassar, por parte do homem, de uma materialidade excessiva e o atingir da plenitude da vida.
A amizade deste com o padre Bartolomeu, originada pela compreensão e pela partilha das mesmas ideias e sonhos, representa a articulação entre a cultura e o humano, entre o saber e o sonho, entre o conhecimento e o desejo.Por fim, Scarlatti é o mensageiro da morte do padre Bartolomeu a Blimunda e Baltasar.
Baltasar
Estudo académico de Joaquín SorollaBaltasar Mateus , com alcunha hereditária de Sete-Sóis, é abandonado pelo exército durante a Guerra da Sucessão Espanhola por ter ficado inválido devido à perda da sua mão esquerda, representando a crítica da desumanidade na guerra. Deixado na miséria, consegue chegar a Lisboa, onde conhece nesse mesmo dia Blimunda e o padre Bartolomeu, num auto-de-fé no Rossio. Contava 26 anos. Imediatamente encantado pelos olhos de Blimunda no primeiro olhar,
Estudo académico de Joaquín SorollaBaltasar Mateus , com alcunha hereditária de Sete-Sóis, é abandonado pelo exército durante a Guerra da Sucessão Espanhola por ter ficado inválido devido à perda da sua mão esquerda, representando a crítica da desumanidade na guerra. Deixado na miséria, consegue chegar a Lisboa, onde conhece nesse mesmo dia Blimunda e o padre Bartolomeu, num auto-de-fé no Rossio. Contava 26 anos. Imediatamente encantado pelos olhos de Blimunda no primeiro olhar,
partilha desde esse momento até morrer a vida e os sonhos com ela. O padre Bartolomeu fá-lo participante do sonho de voar, projecto que será prosseguido na sua responsabilidade após o desaparecimento deste.
Torna-se açougueiro em Lisboa, uma vez que o gancho que usa para substituir a mão lhe facilita o trabalho, e posteriormente integra-se como boieiro nas legiões de operários nas obras do convento de Mafra. Porém, a sua principal ocupação é a construção da passarola.Esta personagem revela-se gradualmente o herói do romance. Pois, em primeiro, por ser o representante do povo oprimido, o seu percurso torna-se o foco do narrador, abatendo do primeiro plano as personagens do grupo de poder.Em segundo, a sua relação com Blimunda, cujos poderes são considerados heréticos, entra em conflito com os valores da sociedade vigente, por não serem casados oficialmente. Em terceiro, pela amizade e partilha de ideias e sonhos com o padre Bartolomeu, que o divinizou ao compará-lo com Deus, por achar que este também é maneta da mão esquerda. Em quarto, pela a influência dessa amizade, Baltasar adquire o conhecimento de outras verdades, acerca do questionamento de dogmas religiosos e, principalmente, sobre a consciência do papel do homem no mundo, esta que será obtida quando Baltasar reconhecer e assumir o seu próprio valor. E por último, porque Baltasar paga com a sua própria vida a perseguição do sonho, o que, por consequente, o faz transcender a imagem do povo oprimido e espezinhado de que faz parte e que representa. Assim, não é um
herói nem um anti-herói, é simplesmente um homem: um homem simples, elementar, fiel, terno e maneta, que reage perante a vida com a resignação típica dos humildes tanto de coração como de condição. Aceita apenas o que a vida lhe oferece, sem medo do trabalho ou da morte.
Blimunda
Blimunda de Jesus é uma jovem mulher do povo de dezanove anos que tem a capacidade de ver por dentro as pessoas e os objectos, durante o jejum, e de recolher as vontades, este acto não mata as pessoas mas é mais fácil ser executado nas que estão a morrer, dom este que é revelado apenas quando o padre de Bartolomeu descobre que o combustível da passarola é o éter e que este está dentro das vontades das pessoas, fazendo esta personagem também parte desse projecto.
Torna-se companheira de Baltasar em consequência da sua mãe, Sebastiana de Jesus, que ao vê-la pergunta-lhe telepaticamente quem é o homem que está ao seu lado. Blimunda vira-se simplesmente para Baltasar e pergunta-lhe qual é o seu nome?. Baltasar responde-lhe, Blimunda diz-lhe o seu e imediatamente inicia-se o puro amor entre os dois, transgredindo a moral tradicional e entrando para um domínio do maravilhoso, e em sua casa os dois entregam-se um ao outro, em corpo e em alma,
com o baptismo através do sangue virgem de Blimunda. Foram abençoados tanto pela mãe de Blimunda, como pelo padre Bartolomeu, ao casá-los à sua maneira e ao baptizar Blimunda com o nome Sete-Luas. Este amor é o símbolo da aceitação e da renúncia, uma vez que Blimunda promete nunca olhar Baltasar por dentro, evitando saber da existência de alguma doença mortal, porque amar alguém é aceitá-lo sem reservas. Esta relação amorosa dá-lhe o carácter de uma mulher adiantada em relação ao seu tempo, pois afirma-se dentro e fora da relação, tem nela uma igualdade de direitos, tal como Baltasar, e juntos têm uma cumplicidade tão perfeita que não é deste mundo na qual partilham os seus sonhos, os seus medos e a sua vida. No percurso final de Blimunda, quando procura Baltasar durante nove anos, revela ainda uma faceta corajosa e persistência, disposta a tudo e até ao fim para encontrar o seu amor perdido.
Descanso na colheita de William-Adolphe Bouguereau
A união do dois assenta numa relação de amparo, uma vez que ele tranquiliza-a na sua maldição de ver por dentro, enquanto ela ajuda-o na carência da sua mão, completando-se um ao outro, formando uma união perfeita. E são felizes na sua "religião do silêncio", em que o olhar tem mais valor que as palavras, em que olharem-se era a casa de ambos.
Em contraste com o casal de conveniência do rei e da rainha, Blimunda e Baltasar, embora sejam um casal ilegítimo por não se terem casado oficialmente, vivem um amor puro e verdadeiro, e por isso vivem mais de Deus, do que o casal real que tanto relevo dá à religiosidade. Deste modo, se houvesse diferença entre esse amor ancestral e a santa missa, a missa perderia.Simbolicamente, o nome Blimunda é o reverso do de Baltasar, tal como é a Lua o reverso do Sol, que, juntamente com o número sete, completam-se até serem um só. O seu nome tem origem na Música, cujo som desgarrador de violoncelo habita no nome Blimunda e cuja vibração está na sua própria alma.Blimunda tem uma grande firmeza interior, e aceita a vida e oferece-se em silêncio sem orgulho nem submissão, com a naturalidade de quem sabe onde está e para o quê. Para além do dom de ver por dentro e de recolher vontades, tem um poder excepcional de intuição e de compreensão da complexidade do mundo. Afirma o narrador que Blimunda aprendeu as coisas sobre
a vida e a morte, sobre o pecado e o amor na barriga da mãe, onde esteve de olhos abertos.
Representa também o transcendente e a inquietação constante do ser humano em relação à morte, ao amor, ao pecado e à existência de Deus.Foi a única sobrevivente da Santíssima Trindade terrena, sendo à partida a mais provável vítima da Inquisição devido aos seus dons. Será um significado de uma vitória da mulher? Vitória do amor? Ou vitória daquela que sabia ver?
Outras personagens
Sebastiana Maria de Jesus: mãe de Blimunda;
João Francisco e Marta Maria: pais de Baltasar;
Álvaro Diogo e Inês Antónia: irmã de Baltasar e cunhados de Blimunda; Álvaro Diogo morre ao cair de uma janela durante a construção do convento;
Gabriel: sobrinho de Baltasar Mateus e filho de Inês Antónia e Álvaro Diogo;
João Elvas: antigo soldado, vadio e amigo de Baltasar;
D. Nuno da Cunha: bispo inquisidor;
Frei António de São José: é o franciscano que alega ter tido a premonição na qual diz que o rei terá a tão desejada sucessão se este construir um convento franciscano. Perante esta condição, D. João V promete construir um convento em Mafra se tiver um filho varão dentro de um ano a partir desse mesmo dia. É revelado no romance pelo narrador que esta premonição é falseada pelo clero, pois este já sabia da gravidez da rainha através do confessionário, com a revelação de mais "milagres" produzidos pela ordem franciscana ou que são apenas coincidências.
Frei Boaventura de São Gião: o padre censor do paço;
Frei Boaventura de São Gião: o padre censor do paço;
Infante D.Francisco: irmão d'el-rei que cobiça o seu trono e que tentou manipular em vão a rainha; o seu passatempo é fazer pontaria com a pistola aos marinheiros;
Infante D. Maria Bárbara: é a princesa herdeira cujo convento de Mafra foi construído em sua honra, embora nunca o tivesse visto; Casa aos dezassete anos e torna-se rainha de Espanha;
Clero: revestidos pelas críticas do narrador, são enfatizados a sua hipocrisia e a sua violência de todos os seus representantes, com foco na Inquisição. Retratados por quebrarem constantemente a castidade e por desprezarem os pobre, é revelada a sua religiosidade vazia, cujos rituais originam a corrupção e a degradação moral no povo, ao invés de elevar os seus espíritos.
Povo: um dos protagonistas do romance como massa colectiva anónima que foi sacrificada na construção do convento, embora também seja representado por Baltasar e Blimunda. É caracterizado como ignorante, miserável, violento e escravos dos poderosos. As personagens que foram individualizadas dessa massa anónima e que representam a força e o companheirismo perante a desgraça da escravidão e da solidão na construção do convento, traduzem a essência de ser português.
Espaço
| Macro espaço: Lisboa | Macro espaço : Mafra | ||
| Espaço Interior | Espaço Exterior | Espaço Exterior | Espaço Interior |
| Micro espaço | Micro espaço | Micro espaço | Micro espaço |
| -Convento de S.Francisco -Casa de Blimunda -A albergaria da Quinta de S.Francisco | - Terreiro do Paço (onde decorriam as touradas) -Rossio (espaço dos autos-de-fé) -Quinta em S. Sebastião da Pedreira | - Alto da Vela (local escolhido para a construção do convento) - Pêro pinheiro -A casa de Sete-Sóis | - A casa de Sete-Sóis -A igreja de Mafra devidamente ornamentada no dia da sagração da primeira pedra do convento |
- Monte Junto, espaço localizado entre Lisboa e Mafra. É o local que acolhe o objecto onírico, a passarola. A máquina de voar aterra em Monte Junto, na natureza virgem, após o primeiro voo, com partida de Lisboa e com passagem por Mafra | |||
Tempo
Tempo histórico
O romance tem como plano de fundo o início do século XVIII. Uma época marcada pelos contrastes: as práticas retrógradas e medievais, do povo e da corte, em oposição ao esforço de modernização, com D. João V como representante.
Tempo diegético
Na narração da obra a cronologia da acção, que sejam eventos reais ou ficcionais, data entre 1711 a 1738 (28 anos), iniciando com a apresentação do rei e terminando com o último auto-de-fé em Portugal, em que Baltasar morre.
Na narração da obra a cronologia da acção, que sejam eventos reais ou ficcionais, data entre 1711 a 1738 (28 anos), iniciando com a apresentação do rei e terminando com o último auto-de-fé em Portugal, em que Baltasar morre.
Tempo do discurso
O modo como flui a cronologia da acção (tempo diegético) é na maior parte do romance linear, tendo porém algumas anacronias, tal como a analepse, a prolepse, utilizada por exemplo para narrar a morte do sobrinho de Baltasar e do infante D.Pedro, e a elipse, utilizada na descrição do período em que Blimunda procurou Baltasar durante 9 anos; e ainda a presença do narrador através dos seus comentários, juízos críticos, registos de língua, e referências ao século XX.
O modo como flui a cronologia da acção (tempo diegético) é na maior parte do romance linear, tendo porém algumas anacronias, tal como a analepse, a prolepse, utilizada por exemplo para narrar a morte do sobrinho de Baltasar e do infante D.Pedro, e a elipse, utilizada na descrição do período em que Blimunda procurou Baltasar durante 9 anos; e ainda a presença do narrador através dos seus comentários, juízos críticos, registos de língua, e referências ao século XX.
NARRADOR
Estamos perante um narrador omnisciente que, ao contar acontecimentos históricos, poderia classificar-se como narrador cronista, não fossem as numerosas reflexões e juísos que insere no que narra que o afastam e da aparente objectividade característica deste tipo de narrador. Além disso, faz muitas fezes comentários apartir do presente que nos indicam que esse narrador omnisciente pertece ao século XX ( como quando faz referencia á chegada do homem á lua). Saramago não pretende ocultar a sua personalidade porque quere que fique claro o seu papel de escritor que interpreta e inventa situações e personagens de um acontecimento histórico, acontecimento de que não se priva de ser juiz e de que, pela forma de o contar, parece ter sido testemunha presencial.
Este narrador omnisciente, borlão, irónico, delitante, demorado nas descrições de situações, descrente e ao mesmo tempo compremtido com os feitos humanos que relata, " filosofia"continuamente, introduzindo considerações no romance que obrigam o leitor a reflectir sobre o que lê e fazendo com que a obra adquira uma importante densidade de conteudo.
ELEMENTOS SIMBÓLICOS
Passarola: é tanto o símbolo da concretização do sonho, representando assim também a libertação do espírito e a passagem a outro estado de consciência, uma vez que que esta é igualmente um símbolo da ligação do céu e da terra, pois ousa sair do domínio dos homens e entrar no domínio de Deus; Por outro lado é um símbolo dual, pois é por sua causa que nasce a Trindade terrestre, mas também é o motivo de separação desta; O voo da passarola está associada em comparação com a mitologia grega
acerca de Faetonte, filho de Apolo, que, querendo imitar o pai, conseguiu com que este o deixa-se guiar o carro do sol por um dia. Porém, Faetonte não conseguiu sustentar o carro no céu, despenhando-se sobre a Terra e morrendo no incêndio resultante. Da mesma maneira, o padre Bartolomeu de Gusmão e Baltasar morrerão devido ao seu desejo de voar e Blimunda tornar-se-á errante.
Sete-Sóis: alcunha de Baltasar porque só pode ver à luz
Sete-Luas: baptismo de Blimunda porque "vê" no escuro, devido aos seus dons;
Sol: representa a força e a própria vida, fazendo corresponder Sete-Sóis a Sete Vidas, transformando deste modo a personagem de Baltasar como representante de todo o povo. Por outro lado, o sol para nascer tem que vencer as trevas, do
mesmo modo que Baltasar tem que vencer a Inquisição e a superstição popular.
E, da mesma maneira que o sol possuí o dia temporariamente, Baltasar atravessa o céu, rasgando o dogma católico do céu como terreno de Deus, adquirindo um estatuto transgressor e de herói mítico. E como tal, para que o destino de herói mítico clássico seja completo, Baltasar morre tragicamente pelo fogo;
Lua: Tradicionalmente a Lua simboliza, por não ter luz própria, o princípio passivo do sol. No entanto, a obra revoluciona o conceito da Lua ao dar a Blimunda capacidades sobrenaturais que dependem das fases da lua, tornando a tão relevante como o sol. Assim é também a relação de Blimunda e Baltasar, pois têm ambos igualdade de direitos e de relevância na obra; Uma vez que a capacidade de Blimunda depende das fases da lua, é revelado a Lua como símbolo do ritmo da Terra, a medida do tempo, este responsável pelo ciclo da vida. Deste modo, Blimunda é quem recolhe as vontades humanas dos moribundos e as
junta nas esferas da passarola, transformando-as em energia vital;
Sol e Lua: simboliza a união como um todo, porque são o verso e o reverso da mesma realidade, o dia; e a união do princípio masculino e do princípio feminino: dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados enquanto as estrelas giravam devagar no céu.
Sete: este número representa a totalidade perfeita. Para além da utilização deste símbolo na expressão da completude de Baltasar e Blimunda, também é recorrido noutras situações, tal como no dia da sagração do convento.
Nove: representa o coroamento dos esforços, o concluir de uma criação, utilizado para simbolizar os 9 anos de procura de Blimunda por Baltasar;
Vontade: as vontades recolhidas, utilizadas como combustível para a passarola voar, representa que, aliadas com a ciência e arte, o querer do homem faz avançar o mundo, superando os seus próprios limites; Esta junção das vontades humanas que é aliada com a ciência e que produz mais força, é comparada com a Primavera mítica que arranca a Humanidade do dogma da religião, do terror inquisitorial e da superstição, livrando assim Portugal da vontade resignada e do pensamento falso e passivo que caracterizava a época;
Trindade terrena: constituída pelo padre Bartolomeu, o pai, por Baltasar, o filho, e por Blimunda, o espírito. Esta simboliza a harmonia perfeita; Uma vez que esta é terrena, está aberta a um quarto elemento,Domenico Scarlatti, dado que quatro é o número da terra;
Mãe de pedra: o transporte desta grande pedra de mármore de Pêro Pinheiro a Mafra é uma epopeia, uma vez que esta acção é descrita com "grandeza" clássica e é vista como um acto heróico dos operários, que tem que transportar uma pedra gigantesca, num carro especialmente concebido para o seu transporte, este comparado a uma nau da Índia, e com a ajuda de duzentas juntas de bois. Os seiscentos homens que a puxam têm que enfrentar difíceis obstáculos do caminho, tal como uma narrativa de heróis clássicos, em que estes têm que contornar grandes obstáculos com um esforço sobrenatural;
Efectivamente, a pontuação utilizada por Saramago confere à escrita uma especificidade que desafia a gramática académica, dificultando a leitura. Esta recriação pretende oferecer ao leitor a oportunidade de entoar, ele próprio, as palavras, bem como personalizar a leitura, contribuindo para a sua expressividade. Substituindo-se marcas do discurso oral por maiúsculas e pontos por vírgulas, como em “Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã”, a pontuação é uma das características mais revolucionárias do estilo de Saramago.
Por outro lado, a visão ‘brechtiana’ do autor é evidente na crítica social que proporciona nas suas obras, através da utilização de figuras de estilo como a metáfora, a enumeração, a ironia e o sarcasmo. Estas servem, sobretudo, para satirizar a sociedade e os seus aspectos mais marcantes. No 'Memorial do Convento', por exemplo, Saramago critica o povo e a realeza por gostarem do espectáculo das touradas, semelhante “ao churrasco do auto-de fé”. De forma subtil ou mordaz, a ironia está sempre presente nas palavras do autor.
Em suma, Saramago assume-se como Neo-realista, com base na ideologia marxista de defesa do povo e crítica ao poder, bem como céptico ao nível da religião. Utilizando, para além da pontuação e das figuras de estilo peculiares, aforismos, provérbios, a coloquialidade e a intertextualidade, subverte o próprio conceito de escrita e afirma-se como um visionário na literatura, no que respeita ao estilo e à linguagem.
ELEMENTOS SIMBÓLICOS
Passarola: é tanto o símbolo da concretização do sonho, representando assim também a libertação do espírito e a passagem a outro estado de consciência, uma vez que que esta é igualmente um símbolo da ligação do céu e da terra, pois ousa sair do domínio dos homens e entrar no domínio de Deus; Por outro lado é um símbolo dual, pois é por sua causa que nasce a Trindade terrestre, mas também é o motivo de separação desta; O voo da passarola está associada em comparação com a mitologia grega
acerca de Faetonte, filho de Apolo, que, querendo imitar o pai, conseguiu com que este o deixa-se guiar o carro do sol por um dia. Porém, Faetonte não conseguiu sustentar o carro no céu, despenhando-se sobre a Terra e morrendo no incêndio resultante. Da mesma maneira, o padre Bartolomeu de Gusmão e Baltasar morrerão devido ao seu desejo de voar e Blimunda tornar-se-á errante.
Sete-Sóis: alcunha de Baltasar porque só pode ver à luz
Sete-Luas: baptismo de Blimunda porque "vê" no escuro, devido aos seus dons;
Sol: representa a força e a própria vida, fazendo corresponder Sete-Sóis a Sete Vidas, transformando deste modo a personagem de Baltasar como representante de todo o povo. Por outro lado, o sol para nascer tem que vencer as trevas, do
mesmo modo que Baltasar tem que vencer a Inquisição e a superstição popular.
E, da mesma maneira que o sol possuí o dia temporariamente, Baltasar atravessa o céu, rasgando o dogma católico do céu como terreno de Deus, adquirindo um estatuto transgressor e de herói mítico. E como tal, para que o destino de herói mítico clássico seja completo, Baltasar morre tragicamente pelo fogo;
Lua: Tradicionalmente a Lua simboliza, por não ter luz própria, o princípio passivo do sol. No entanto, a obra revoluciona o conceito da Lua ao dar a Blimunda capacidades sobrenaturais que dependem das fases da lua, tornando a tão relevante como o sol. Assim é também a relação de Blimunda e Baltasar, pois têm ambos igualdade de direitos e de relevância na obra; Uma vez que a capacidade de Blimunda depende das fases da lua, é revelado a Lua como símbolo do ritmo da Terra, a medida do tempo, este responsável pelo ciclo da vida. Deste modo, Blimunda é quem recolhe as vontades humanas dos moribundos e as
junta nas esferas da passarola, transformando-as em energia vital;
Sol e Lua: simboliza a união como um todo, porque são o verso e o reverso da mesma realidade, o dia; e a união do princípio masculino e do princípio feminino: dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados enquanto as estrelas giravam devagar no céu.
Sete: este número representa a totalidade perfeita. Para além da utilização deste símbolo na expressão da completude de Baltasar e Blimunda, também é recorrido noutras situações, tal como no dia da sagração do convento.
Nove: representa o coroamento dos esforços, o concluir de uma criação, utilizado para simbolizar os 9 anos de procura de Blimunda por Baltasar;
Vontade: as vontades recolhidas, utilizadas como combustível para a passarola voar, representa que, aliadas com a ciência e arte, o querer do homem faz avançar o mundo, superando os seus próprios limites; Esta junção das vontades humanas que é aliada com a ciência e que produz mais força, é comparada com a Primavera mítica que arranca a Humanidade do dogma da religião, do terror inquisitorial e da superstição, livrando assim Portugal da vontade resignada e do pensamento falso e passivo que caracterizava a época;
Trindade terrena: constituída pelo padre Bartolomeu, o pai, por Baltasar, o filho, e por Blimunda, o espírito. Esta simboliza a harmonia perfeita; Uma vez que esta é terrena, está aberta a um quarto elemento,Domenico Scarlatti, dado que quatro é o número da terra;
Mãe de pedra: o transporte desta grande pedra de mármore de Pêro Pinheiro a Mafra é uma epopeia, uma vez que esta acção é descrita com "grandeza" clássica e é vista como um acto heróico dos operários, que tem que transportar uma pedra gigantesca, num carro especialmente concebido para o seu transporte, este comparado a uma nau da Índia, e com a ajuda de duzentas juntas de bois. Os seiscentos homens que a puxam têm que enfrentar difíceis obstáculos do caminho, tal como uma narrativa de heróis clássicos, em que estes têm que contornar grandes obstáculos com um esforço sobrenatural;
Linguagem e Estilo de Saramago no 'Memorial do Convento'
Escrita de Saramago é marcada por um estilo e uma linguagem peculiares, que o diferenciam no panorama literário português. Crítico de tempos passados e presentes, procura subverter conceitos tradicionalmente aceites na sociedade, satirizando situações e personagens, servindo-se para isso de uma escrita igualmente subversiva.
Efectivamente, a pontuação utilizada por Saramago confere à escrita uma especificidade que desafia a gramática académica, dificultando a leitura. Esta recriação pretende oferecer ao leitor a oportunidade de entoar, ele próprio, as palavras, bem como personalizar a leitura, contribuindo para a sua expressividade. Substituindo-se marcas do discurso oral por maiúsculas e pontos por vírgulas, como em “Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã”, a pontuação é uma das características mais revolucionárias do estilo de Saramago.
Por outro lado, a visão ‘brechtiana’ do autor é evidente na crítica social que proporciona nas suas obras, através da utilização de figuras de estilo como a metáfora, a enumeração, a ironia e o sarcasmo. Estas servem, sobretudo, para satirizar a sociedade e os seus aspectos mais marcantes. No 'Memorial do Convento', por exemplo, Saramago critica o povo e a realeza por gostarem do espectáculo das touradas, semelhante “ao churrasco do auto-de fé”. De forma subtil ou mordaz, a ironia está sempre presente nas palavras do autor.
Em suma, Saramago assume-se como Neo-realista, com base na ideologia marxista de defesa do povo e crítica ao poder, bem como céptico ao nível da religião. Utilizando, para além da pontuação e das figuras de estilo peculiares, aforismos, provérbios, a coloquialidade e a intertextualidade, subverte o próprio conceito de escrita e afirma-se como um visionário na literatura, no que respeita ao estilo e à linguagem.