Sttau Monteiro
BiografiaBibliografia
- Um Homem Não Chora, Lisboa, 1960; Angústia para o Jantar, Lisboa, 1961; Felizmente Há Luar!, Lisboa, 1961; Todos os Anos, pela Primavera, Lisboa, 1963; O Barão, Lisboa, 1964; Auto da Barca do Motor fora da Borda, Lisboa, 1966; A Guerra Santa, Lisboa, 1967; A Estátua, Lisboa, 1967; As Mãos de Abraão Zacut, Lisboa, 1968; Sua Excelência, Lisboa, 1971; E se For Rapariga chama-se Custódia, 1978; Crónica Atribulada do Esperançoso Fagundes, Lisboa, 1981
Felizmente Há Luar!
Personagens da obra
GOMES FREIRE: protagonista, embora nunca apareça é evocado através da esperança do povo, das perseguições dos governadores e da revolta da sua mulher e amigos. É acusado de ser o grão-mestre da maçonaria, estrangeirado, soldado brilhante, idolatrado pelo povo. Acredita na justiça e luta pela liberdade. É apresentado como o defensor do povo oprimido; o herói (no entanto, ele acaba como o anti-herói, o herói falhado); símbolo de esperança de liberdadeD. MIGUEL FORJAZ: primo de Gomes Freire, assustado com as transformações que não deseja, corrompido pelo poder, vingativo, frio e calculista. prepotente; autoritário; servil (porque se rebaixa aos outros);
PRINCIPAL SOUSA: defende o obscurantismo, é deformado pelo fanatismo religioso; desonesto, corrompido pelo poder eclesiástico, odeia os franceses
BERESFORD: cinismo em relação aos portugueses, a Portugal e à sua situação; oportunista; autoritário; mas é bom militar; preocupa-se somente com a sua carreira e com dinheiro; ainda consegue ser minimamente franco e honesto, pois tem a coragem de dizer o que realmente quer, ao contrário dos dois governadores portugueses. É poderoso, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico
VICENTE: sarcástico, demagogo, falso humanista, movido pelo interesse da recompensa material, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado; traidor; desleal; acaba por ser um delator que age dessa maneira porque está revoltado com a sua condição social (só desse modo pode ascender socialmente).
MANUEL: denuncia a opressão a que o povo está sujeito. É o mais consciente dos populares; é corajoso.
MATILDE DE MELO: corajosa, exprime romanticamente o seu amor, reage violentamente perante o ódio e as injustiças, sincera, ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre. Representa uma denúncia da hipocrisia do mundo e dos interesses que se instalam em volta do poder (faceta/discurso social); por outro lado, apresenta-se como mulher dedicada de Gomes Freire, que, numa situação crítica como esta, tem discursos tanto marcados pelo amor, como pelo ódio.
SOUSA FALCÃO: inseparável amigo, sofre junto de Matilde, assume as mesmas ideias que Gomes Freire, mas não teve a coragem do general. Representa a amizade e a fidelidade; é o único amigo de Gomes Freire de Andrade que aparece na peça; ele representa os poucos amigos que são capazes de lutar por uma causa e por um amigo nos momentos difíceis.
Frei Diogo: homem sério; representante do clero; honesto – é o contraposto do Principal Sousa.
Delatores: mesquinhos; oportunistas; hipócritas.
MIGUEL FORJAZ, BERESFORD e PRINCIPAL SOUSA perseguem, prendem e mandam executar o General e restantes conspiradores na fogueira. Para eles, a execução à noite, constituía uma forma de avisar e dissuadir os outros revoltosos, mas para MATILDE era uma luz a seguir na luta pela liberdade.
Espaço
Espaço físico: a acção desenrola-se em diversos locais, exteriores e interiores, mas não há nas indicações cénicas referência a cenários diferentes.
Espaço social: meio social em que estão inseridas as personagens, havendo vários espaços sociais, distinguindo-se uns dos outros pelo vestuário e pela linguagem das várias personagens.
Tempo
a) Tempo histórico: século XIX
b) Tempo da escrita: 1961, época dos conflitos entre a oposição e o regime salazarista
c) Tempo da acção dramática: a acção está concentrada em 2 dias
d) Tempo da narração: informações respeitantes a eventos não dramatizados, ocorridos no passado, mas importantes param o desenrolar da acção
Texto didascálico
Nesta obra, as didascálias assumem especial relevância, pois constituem a explicitação ideológica da peça. A par das palavras proferidas pelas personagens, surgem como
explicação, denúncia e explicitação da linguagem destas.
Assim, as didascálias funcionam na obra como: explicações do autor, referências à posição
tom de voz das personagens, indicação das pausas, saída ou entrada de personagens,
apresentação da dimensão interior das personagens, indicações sonoras ou ausência de
som, ilações que funcionam como informações e como forma de caracterização das
personagens, sugestões do aspecto exterior das personagens, movimentação cénica das
personagens, expressão fisionómica dos actores, linguagem gestual a que, por vezes, se
acrescenta a visão do autor, expressão do estado de espírito das personagens.Tempo da história & Tempo da escrita
TEMPO DA HISTÓRIA (século XIX – 1817) | TEMPO DA ESCRITA (século XX – 1961) |
- agitação social que levou à revolta liberal de 1820 – conspirações internas; revolta contra a presença da Corte no Brasil e influência do exército britânico - regime absolutista e tirânico - classes sociais fortemente hierarquizadas - classes dominantes com medo de perder privilégios - povo oprimido e resignado - a “miséria, o medo e a ignorância” - obscurantismo, mas “felizmente há luar” - luta contra a opressão do regime absolutista - Manuel, “o mais consciente dos populares”, denuncia a opressão e a miséria - perseguições dos agentes de Bereford - as denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmente que, hipócritas e sem escrúpulos, denunciam - censura - severa repressão dos conspiradores - processos sumários e pena de morte - execução do General Gomes Freire | - agitação social dos anos 60 – conspirações internas; principal irrupção da guerra colonial - regime ditatorial de Salazar - maior desigualdade entre abastados e pobres - classes exploradas, com reforço do seu poder - povo reprimido e explorado - miséria, medo e analfabetismo - obscurantismo, mas crença nas mudanças - luta contra o regime totalitário e ditatorial - agitação social e política com militares antifascistas a protestarem - Perseguições da PIDE - denúncias dos chamados “bufos”, que surgem na sombra e se disfarçam, para colher informações e denunciar - censura à imprensa - prisão e duras medidas de repressão e de tortura - condenação em processos sem provas |
Parelelo entre as personagens do tempo da história e as personagens do tempo da escrita
Elementos simbólico
Em Felizmente Há Luar! há diversos símbolos que favorecem a compreensão da situação vivida e a esperança da liberdade:
A saia representa a feminilidade e a familiaridade, e, por ser verde, a fertilidade e esperança. Comprada em Paris (terra da liberdade), com o dinheiro da venda de duas medalhas representa a felicidade do passado. Colocada por Matilde no momento da execução, destaca a "alegria" do reencontro (da união entre o casal) e aponta um novo caminho de esperança e alento.
O título surge por duas vezes, inserido nas falas das personagens. Na expressão de D. Miguel, o luar permitirá que o castigo seja visto por todos e, por via do terror, garantirá a eficácia desta execução pública pelo efeito dissuasor. Nas palavras de Matilde, o luar irá alertar as consciências, levando o Povo a lutar pela liberdade, contra a tirania.
A fogueira simboliza, por um lado, a destruição (pelo menos, momentânea das esperanças), mas também a purificação e, pela luz que emite e energia que gera, o poder de luta para garantir a revolução.
A moeda de cinco réis simboliza a hipocrisia social, a forma como se acalma a consciência com uma esmola e é símbolo do desrespeito (dos mais poderosos em relação aos mais desfavorecidos). Quando Matilde a entrega ao Principal Sousa, a moeda é comparada às que Judas recebeu (moedas de traição com que se compram as almas).
Os tambores, símbolo da repressão, provocam o medo e prenunciam a ambiência trágica da acção.
